sábado, 7 de março de 2026

Uma história de amor

03 de novembro de 2021

O mês de novembro (sempre) é marcado por diversos eventos em representação ao Dia da Consciência Negra. Só posso falar por mim e aqui vai uma opinião polêmica: a sensação de que só somos vistos e levados em consideração durante o mês de novembro. Esta perspectiva tem mudado? Sim. Foi suficiente para mudar a minha opinião? Não.

Veja bem, a força com que lutamos a favor dos nossos, de nós mesmos e em prol de um futuro melhor, é desproporcional a força estrutural que nos puxa, sempre, para baixo. “Mas e daí?”, você pode me perguntar. “A gente senta e aguarda os branques tomarem consciência?”

E eu poderia te perguntar em réplica: pessoas brancas têm consciência racial?

Em entrevista ao Podcast Lado B do Rio, episódio 216, no dia 29 de outubro, Wagner Moura fala sobre o filme “Marighella” – o guerrilheiro que incendiou o mundo. Em várias declarações importantíssimas sobre a produção e direção do longa, a que mais me chamou atenção foi: “Eu fiz o caminho inverso do audiovisual brasileiro”, disse o ator e diretor branco. “Ao invés de embranquecer, eu empreteci”.

 

Seu Jorge e o diretor Wagner Moura no set de ‘Marighella’ — Foto: Divulgação

 

Isso porque Mano Brown foi o primeiro cotado para interpretar o personagem de Marighella mas, posteriormente, Seu Jorge acabou sendo o escolhido – fato que impulsionou uma carga de racismo estrutural, envolvendo colorismo e eugenia, por conta de seu tom de pele retinto.

Wagner Moura marcou sua estreia como diretor na produção deste filme importantíssimo, que resgata a história de nosso ancestral, Carlos Marighella: baiano, negro (quase redundante), filho de mulher negra descendente de escravizados com pai imigrante italiano. Conseguiu ascender (olhe só a época) e ingressar na universidade, onde se tornou líder do movimento comunista e deu início a vida na militância partidária contra a ditadura de Getúlio Vargas – aquele que precisou morrer para entrar para a história.

Agora veja só: a história de nosso ancestral, em épocas de ditadura, contada e aplaudida internacionalmente em meio a um regime atual de extrema direita, contra pretos, pobres e mulheres, a favor somente do ódio e da ganância. Aplaudido de pé em diversos festivais internacionais – aqui eu me repito – a história de Marighella foi e vem sendo perseguida desde o governo de Getúlio Vargas até o governo de Jair Bolsonaro. Você consegue entender?

A  estreia do filme no Brasil estava marcada para  20 de novembro de 2019, em homenagem ao dia da Consciência Negra – mas sofreu  boicote e precisou ser adiada, passando pela pandemia e agora, após dois anos, o filme chegará aos cinemas em 4 de novembro – o dia que marca 52 anos do assassinato de Carlos Marighella.

Ainda em entrevista ao podcast, Wagner Moura diz que este é um filme sobre amor. Sobre um amor revolucionário, amor de quem quer que as coisas mudem. De quem quer ver narrativas sendo contadas como realmente ocorreram e não pela perspectiva “do poder”. E é isso que nós, pessoas negras, temos almejado, exigido, vivido e morrido por. Por amor. Parece tão simples, mas é tão complicado. Já fazem séculos que nós buscamos amor: amor próprio, mesmo vendo nossa beleza ser desprezada; amor por nossos ofícios, mesmo sendo rechaçados pelo mercado de trabalho; amor uns pelos outros, mesmo quando nossa imagem está sempre ligada a violência e desconfiança. 

E neste novembro negro, assim como em todos os outros meses, eu nos desejo amor.

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