sábado, 7 de março de 2026

Eu sinto muito

20 de novembro de 2021

Hoje eu chorei. E não foram lágrimas discretas que desceram devagar pelo rosto. Eu chorei copiosamente, todo o meu corpo chorou junto e foi libertador. Há tempos eu sentia uma necessidade horrorosa de sofrer, de me entregar ao mais completo desespero e angústia, mas eu não conseguia. Eu precisava ser forte. Para mim, para minha família, para os amigos e até para os desconhecidos. Eu sentia, mas eu não queria sentir.

Há tempos eu andei por aí, em sorrisos com amigos, em conversas interessantes com estranhos, sorrindo. Eu sorria muito e ao mesmo tempo lá no fundo, eu me imaginava sentada no meio do mundo, o meu mundo, sozinha, não no escuro, era tudo muito claro. Mas não fazia sentido. Eu senti tudo e eu não queria sentir.

Veja bem, mulheres negras são estereotipadas como mulheres fortes. Mulheres de luta e resistência. Mulheres que se levantam sempre, apesar dos pesares. Nós não nos lamentamos sem protesto. Imagino que daí tenha surgido o mito da mulher negra raivosa. Nós nos fazemos notar. E eu sinto muito por isso.

Sinto muito que tenhamos que nos desgastar tanto para que nossa existência seja levada em consideração. Sinto muito que tenhamos que ser sempre fortes e altivas. Sinto muito pelo desgaste emocional que tanto nos maltrata e persegue. Eu sinto muito e eu quero sentir.

Eu quero sentir tudo. E eu senti. Hoje, eu senti pelo mundo, senti pelos meus iguais e por pessoas que eu nunca conheci antes, sofri por minha família e amigos, mas essencialmente, eu sofri por mim. Eu senti muito.

Eu senti cada momento de angústia camuflada, e foi libertador. Eu não sou forte. Eu não quero perder o sono pelo resto da vida só por ser uma mulher negra. Não quero ter que brigar pelo direito de me calar, de me preservar, eu quero sentir. Eu quero ser livre para sentir todos os dias e noites, sem estereótipos, sem recortes, eu só quero sentir. E quero sentir muito.

E agora, depois desse mar de lágrimas do meu próprio mundo, eu me peguei desejando um futuro libertador para nós. Que possamos ser livres para sentirmos o que for preciso, agora ou depois, mas que tenhamos o poder de escolha. Que sejamos livres para sentir e sentir muito.

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