Para além das discussões de violência e não violência levantadas no domingo, em decorrência da agressão verbal sofrida por Jada Smith, eu quero te fazer uma pergunta bem honesta e não tão simples: qual foi a última vez que você consumiu conteúdo de mulheres negras?
De Sueli Carneiro à Majur, de Erika Hilton à Jojo Todinho, de Carolina Maria de Jesus à Francisca Trindade, de Benedita da Silva à Jurema Werneck, de Jaqueline Goes à Monique Evelle, de Flávia Oliveira à Elisa Lucinda, de Elza Soares à Erika Malunguinho, de Margareth Menezes à Itala Herta, de Cristiane Pinto à Leci Brandão.
No seu círculo próximo de amizades, quantas dessas pessoas são mulheres negras? Quantas mulheres negras você conhece que tem o mesmo acesso que você? Quantas ganham o mesmo? Quantas competem profissionalmente com currículo similar? Quantas mulheres negras você já tocou o cabelo sem pedir permissão, e quantas você fez algum comentário sobre aparência?
Quem te inspira?
Quantas vezes você se levantou em defesa de uma mulher negra ou a apoiou em uma decisão difícil? E que ambiente e círculo vocês frequentavam enquanto sofriam esta violência? E isso importa? Muito. Quantas mulheres negras você elogia em público sem hipersexualizar seus corpos? Quais personagens de mulheres negras te renderam comentários inspiradores? Se o livro não diz, que cor você dá à personagem do seu livro favorito?
Quando você idealiza uma mulher perfeita – eu disse perfeita – que cor ela tem? Veja bem, se a violência nada justifica, por que as mulheres negras são 58,86% dos casos de violência doméstica, 65,9% das vítimas de violência obstetrícia e 68,8% das vítimas de morte por agressão?
Em contrapartida, não ocupamos os cargos públicos ou cargos de direção nas corporações, não ocupamos os papéis de protagonismo na TV ou no cinema, não nos encaixamos no padrão de beleza pré-estabelecido pela sociedade. Sendo assim, quem poderá nos defender? Quem nos permitiu avançar, ainda que a passos lentos, ao nível de consciência e transgressão que ocupamos hoje?
São muitas perguntas e todas com a mesma resposta, desde o século XV.
Estamos aqui, mais uma vez, ao invés de discutirmos a maior premiação do cinema internacional, representatividade, inclusão, planos de futuro, desenvolvimento econômico e
social, nos perguntando: e eu não sou uma mulher?
