sexta-feira, 31 de julho de 2026

O futuro que vem do sol

No Piauí, estado liderança em instalação de usinas fotovoltaicas, jovens cientistas desenvolvem pesquisas em energia solar

04 de julho de 2022

Edição Luana Sena

Regina Sousa, governadora do Piauí, observava tudo com cuidado e atenção nas salas do Centro de Formação Antonino Freire, no bairro Matinha, periferia da zona Norte de Teresina. O prédio é uma das primeiras instituições de capacitação docente piauiense, funcionando desde 1973, mas que nos últimos anos tem dividido espaço com estudantes da Universidade Estadual do Piauí. Naquela manhã do dia 23 de junho, a governadora caminhava ao lado do professor Juan Aguiar e do reitor da Uespi, Evandro Alberto, para conhecer o espaço, agora ocupado por uma nova geração de cientistas. Ao redor do trio, uma comitiva de alunos, repórteres e representantes de outras instituições ouviam com atenção os comentários de Juan. 

Um dos projetos chamou a atenção de Regina. Ela se aproximou com cuidado, a mão sobre o peito e olhos atentos. Via uma espécie de forno de cozinha que, embora diferente do modelo convencional, prometia realizar as funções básicas de um fogão. Tinha apenas uma diferença: era alimentado pela energia solar. O projeto, há quase oito meses em desenvolvimento, foi pensado para funcionar com o calor do sol, ao invés de placas solares. Riquelme Santos, Kailane Sousa, ambos de 20 anos, e Alisson, de 23 anos, são os jovens cientistas e pesquisadores do protótipo.  Todos eles fazem parte do Núcleo de Formação e Pesquisa em Energias Renováveis do Piauí (NUFPERPI), ligado à Uespi e orientados pelo professor Juan. 

Basicamente, o funcionamento do forno consiste em uma câmara de armazenamento de energia térmica: o equipamento capta os raios solares para dentro do forno e, assim, esquenta o alimento. A ideia é que possa suprir uma outra carência para população de baixa renda. No Piauí, o preço médio do botijão de gás tem alcançado os R$120 – segundo a Agência Nacional do Petróleo. Com o projeto, o forno seria alimentado por uma fonte abundante e que não falta no estado: o sol. “É de impressionar”, avaliou a governadora. “Penso que algo assim possa ampliar a segurança alimentar e garantir a qualidade de vida dos piauienses em um futuro próximo”, completou Regina, parabenizando os idealizadores.

Riquelme Santos, Kailane Sousa mostram o forno que funciona o calor do sol (Foto: Vitória Pilar)

Ao lado do trio, Glennerson Vieira, de 22 anos, pensou como um projeto poderia melhorar a vida das pessoas nas regiões do semiárido piauiense. “Qualquer problema hoje pode ser resolvido com uma solução inteligente e sustentável”, explica o jovem. Foi então que criou, sozinho, um sistema de monitoramento e automação solar. Por meio do sistema e com o sol, regiões com poços e aquíferos são facilmente bombeadas. Em locais de pouco recurso hídrico, a inovação traz algo necessário para estimular regiões de plantações em pleno sertão: a água. 

Outro problema que o produto consegue superar é a dependência tecnológica. Sem internet, apenas com telefonia, um usuário do sistema pode acompanhar o bombeamento através do celular. “Em termos práticos, para uma casa que tem um poço à distância, é feito o acionamento, por meio de uma notificação no celular sobre a automação do sistema”, explica o estudante. “É um projeto de facilitação, onde os sensores captam o nível da água. Ele faz isso no solo e no sistema de agricultura, mas de forma remota”, complementa Glennerson.

Glennerson Vieira criou um sistema de monitoramento e automação solar (Foto: Vitória Pilar)

Também na mira da inovação, Alisson Mesquita vem desenvolvendo um rastreador solar. O protótipo nasceu da necessidade de otimizar o sistema de micro geração atual. A tecnologia de rastreamento, já utilizada em usinas de micro e grande porte, será desenvolvida para sistemas de pequeno porte.  A ideia é fazer com que a placa siga o sol, ao longo do dia, com auxílio da mecatrônica e sensoriamentos – captação solar. “Com isso, estaremos exportando uma tecnologia que já existe, mas para sistemas de pequeno porte, ou seja, as casas”, explica o estudante. 

Alisson Mesquita e seu protótipo de rastreador solar (Foto: Vitória Pilar)

Por uma pesquisa possível 

O espaço que compreende os laboratórios foi inaugurado há quase um ano, mas, bem antes disso, as pesquisas já vinham sendo desenvolvidas. Juan, que é egresso do curso de Engenharia Elétrica da instituição, faz parte de uma geração de estudantes que não teve um espaço para o desenvolvimento das tecnologias feitas por jovens cientistas. Quando voltou à Uespi como professor, tinha em mente a criação desse lugar, que pudesse ser embrionário para abarcar pesquisas possíveis no campo da inovação. 

O desenvolvimento das pesquisas vai de encontro com o momento atual do Piauí. Há quase seis anos houve um crescimento exponencial na instalação de usinas fotovoltaicas, que fez o estado ser liderança em relação à potência instalada na geração centralizada. Os dados são da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR).  Em maio de 2021, o estado alcançou a maior capacidade de produção de energia solar. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a potência das usinas de energia fotovoltaica instaladas em território piauiense passou de 1 GWH, ou 1.033,76 MWh. Somada a capacidade de geração de energia solar à eólica, essas duas fontes foram responsáveis por 91% da potência do Piauí, classificando o estado como o maior gerador desse tipo de energia renovável. Segundo a Aneel, a matriz energética do Piauí em maio foi de 3,71 GW.

Para que fosse possível a criação do Núcleo, Juan explica que uma série de parcerias foram estreitadas. Entre elas, o retorno social das Concessionárias do Projeto de Energia Limpa do Estado do Piauí, Superintendência de Parcerias e Concessões (Suparc) e a parceria público-privada Piauí Conectado. “Os projetos, agora extensionistas, excedem a própria pesquisa e tentam se consolidar para devolver o melhor à sociedade e ao desenvolvimento do mercado”, destaca Juan. O professor reconhece que a pesquisa tem sido aprimorada pelos esforços dos alunos. O interesse da primeira geração de pesquisadores do Núcleo de Formação e Pesquisa em Energias Renováveis, no Centro Antonino Freire, tem dado base para trilhar um laboratório cada vez mais robusto e jovens cada vez mais capacitados, seja no que diz respeito à inovação, como na qualidade das pesquisas. “Os alunos ficam nos finais de semana, enfrentando qualquer desafio”, destaca o professor. “Sem eles, nada disso seria possível”.

Professor Juan Aguiar e seus alunos: “Sem eles, nada disso seria possível” (Foto: Vitória Pilar)


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