sábado, 7 de março de 2026

Carga Tributária: uma discussão qualitativa

17 de setembro de 2021

Acho que posso iniciar este texto afirmando, sem delongas, que no Brasil se paga muito imposto e o retorno que os governos dão à sociedade brasileira sob a forma de oferta de serviços públicos está muito aquém do esperado. Acho que o(a) caro(a) leitor(a), independente da sua visão política, não há de discordar desta afirmação.

A partir dessa constatação, óbvia por sinal, fica a pergunta: o que fazer para mudar essa realidade? Precisamos reduzir a carga tributária? Ou mantemos a carga tributária como está e os governos aumentam a qualidade dos serviços públicos oferecidos à população? Ou uma combinação das duas possibilidades anteriores?

Em um estudo feito em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT)[1], foram considerados os 30 países com maior carga tributária do mundo no ano de 2017, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Esse estudo foi feito com o objetivo de verificar se os impostos arrecadados pelos governos desses 30 países estariam retornando para a sociedade através de serviços públicos de qualidade, gerando bem-estar à população.

Além de levar em consideração a carga tributária, esse estudo utilizou também para análise o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) desses países para o ano de 2018, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

O IDH é um índice que varia de 0 a 1, sendo que quanto mais próximo de 1, mais desenvolvido o país é considerado. Ele é calculado levando-se em conta 3 indicadores: PIB per capita, expectativa de vida do indivíduo ao nascer e educação (taxa de alfabetização de adultos e taxa de matrículas nos ensinos fundamental, médio e superior). Países com IDH abaixo de 0,5 são considerados de baixo desenvolvimento, países com IDH entre 0,5 e 0,8 são de médio desenvolvimento e países com IDH acima de 0,8 são considerados de alto desenvolvimento.

Para atingir seu objetivo, esse estudo criou um índice para demonstrar o nível de retorno à população dos valores arrecadados com impostos em cada país. O IBPT criou então o Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade (IRBES). Esse índice é resultado do somatório do valor numérico relativo à carga tributária do país, ponderada em 15%, com o IDH, ponderado em 85%. Quanto maior for o valor deste índice, melhor é o retorno da arrecadação dos impostos para a sociedade.

Os resultados encontrados estão disponíveis na tabela 1.

Note inicialmente que o Brasil ocupa o último lugar desse ranking, ou seja, dentre os 30 países com maior carga tributária do mundo analisados, o Brasil é o país que apresenta o pior índice de retorno ao bem-estar da sociedade (IRBES).

Note também que há países com uma carga tributária muito menor que a do Brasil e mesmo assim possuem um IDH maior e, por conseguinte, um IRBES muito superior ao do Brasil. Podemos citar como exemplo Irlanda, Austrália, Suíça e Estados Unidos (os quatro primeiros do ranking). Esses casos parecem indicar que uma carga tributária baixa[2] é um pré-requisito para o desenvolvimento econômico e social de um país.

Contudo, também há um grupo de países com uma carga tributária muito maior que a do Brasil, mas que também apresentam um IDH maior e um IRBES superior ao Brasil. Podemos citar como exemplo França, Itália, Suécia e Bélgica. Note que todos esses países citados são desenvolvidos também.

Portanto, prezado(a) leitor(a), temos vários exemplos de países desenvolvidos com carga tributária muito menor que o Brasil (Irlanda, Austrália, Suíça, Estados Unidos etc.) e muito maior também (França, Itália, Suécia, Bélgica etc.). Logo, mais importante que realizar uma discussão quantitativa da carga tributária brasileira é realizar uma discussão qualitativa, ou seja, precisamos discutir e cobrar dos nossos governantes um maior retorno dos nossos impostos sob a forma de oferta de serviços públicos de qualidade, assim como ocorre nos países desenvolvidos.

Tabela 1 – Ranking dos países segundo o Índice de Retorno ao Bem-Estar da Sociedade (IRBES).

PAÍS CARGA TRIBUTÁRIA (2017) IDH (2018) IRBES RANKING
IRLANDA 22,80% 0,938 168,51
AUSTRÁLIA 27,80% 0,939 162,85
SUÍÇA 28,50% 0,944 162,47
ESTADOS UNIDOS 27,10% 0,924 162,38
CORÉIA DO SUL 26,90% 0,903 160,82
JAPÃO 30,60% 0,909 157,08
CANADÁ 32,20% 0,926 156,68
NOVA ZELÂNDIA 32% 0,917 156,15
REINO UNIDO 33,30% 0,922 155,08
ISRAEL 32,70% 0,903 154,15 10º
NORUEGA 38,20% 0,953 152,08 11º
ESPANHA 33,70% 0,891 151,98 12º
ALEMANHA 37,50% 0,936 151,44 13º
ISLÂNDIA 37,70% 0,935 151,12 14º
REPÚBLICA TCHECA 34,90% 0,888 150,35 15º
ESLOVÁQUIA 32,90% 0,855 149,84 16º
ESLOVÊNIA 36,00% 0,898 149,76 17º
URUGUAI 29,30% 0,804 149,65 18º
ARGENTINA 31,30% 0,825 149,13 19º
LUXEMBURGO 38,70% 0,904 147,34 20º
ÁUSTRIA 41,80% 0,908 144,11 21º
DINAMARCA 43,50% 0,929 143,94 22º
FRANÇA 41,50% 0,901 143,86 23º
SUÉCIA 44% 0,933 143,71 24º
GRÉCIA 39,40% 0,870 143,64 25º
FINLÂNDIA 43,30% 0,920 143,41 26º
HUNGRIA 37,70% 0,838 142,88 27º
BÉLGICA 44,60% 0,916 141,57 28º
ITÁLIA 42,40% 0,880 141,04 29º
BRASIL 34,25% 0,759 140,13 30º

Fonte: OLENIKE et al. (2019, p. 4-5).

[1] OLENIKE, J. E.; AMARAL, G. L. do; AMARAL, L. M. F. do. Estudo Sobre Carga Tributária/PIB X IDH – Cálculo do IRBES. 2019.

Disponível em: < https://s3-sa-east-1.amazonaws.com/ibpt.impostometro/Estudo/c6847ea7-b4ce-4757-b73a-79246c8543bb.pdf?AWSAccessKeyId=AKIAJ6G62QBDP6APV4YA&Expires=1631846553&Signature=YMUKrMeRS5avhU5nLUuemUDFfAc%3D>. Acesso em: 14/09/2021.

 

[2] Por carga tributária baixa, estamos nos referindo a uma carga tributária entre 20-30% do PIB; e carga tributária alta acima de 40% do PIB.

Categorias: