sábado, 7 de março de 2026

Dororidade travesti

24 de janeiro de 2022
por Ayra Dias

“Se a travesti não estiver na frente para levar o tiro, o gay não vive”

Tay Di Monique

 

Este não é um texto sobre dores, mas, sim sobre como que, a partir delas, travestis e transexuais negras construíram uma comunidade pautada no sentimento de irmandade, cumplicidade, afetividades e compreensão de nossas corpas como potencialidades politicas, corpas travestis gritam, esbravejam aos quatro ventos que o mito fundante da branquitude que divide nossa sociedade em homens e mulheres é uma grande falácia.

No livro Transfemismo, Leticia Nascimento, doutoranda em educação pela Universidade Federal do Piauí nos diz que é no feminismo negro que encontramos acolhimento quanto às demandas e atravessamentos de travestis e transexuais. Para escurecer a discussão, farei uso do conceito desenvolvido pela professora, escritora e ativista, Vilma Piedade: Dororidade.

Travestis e transexuais negras trazem em suas corpas a encruzilhada das avenidas de gênero, raça e classe que faz com que sejamos alvo de um processo de genocídio que se estrutura nas bases do colonialismo, ou seja: morremos em virtude de um processo de violência que tem a raça como um potencializador, isto porque a sociedade brasileira nunca rompeu de fato com suas práticas racistas. 78% das travestis mortas em 2020, segundo dados da ANTRA, eram negras.

Concordo com Vilma que, sendo a raça o um importante potencializador das opressões, a sororidade não dá conta de nos abraçar. No entanto, compreendendo que um não se constrói sem o outro, “assim como o barulho contém o silêncio, doridade traz consigo o vazio, a ausência, a fala silenciada, a dor causada pelo racismo e esta dor é PRETA”. Ouso dizer então que somo nós, travestis e transexuais negras,  as que mais sentem a dor da perda de nossas irmãs. Carregamos em nossas corpas vivências que se cruzam.

Não somos, no entanto, uma comunidade homogênea ou romântica. Aprendemos com nossas ancestrais a percorrer os caminhos das disputas e narrativas políticas, isto porque, cada corpa travesti, transsexual, transgênero traz em si singularidades e particularidades que ampliam nossas discussões. Por vezes, essas disputas ocorrem em espaços que foram construídos por e para nossa população, como no caso da Ballroom, que mesmo sendo aquilombamento travesti ainda precisamos demarcar a importância de nossas histórias.

 É contraditório pensar que, dentro de uma comunidade criada para oferecer possibilidades de vida e celebrar a vida de travestis, transexuais, transgêneros  e toda a comunidade LGBTQIA+  negra,  seja também um ambiente de disputa. Isso acontece porque não somos uma comunidade alheia às estruturas de uma sociedade. Em roda de conversa com  a Pionegre Fenix Zion, que é professore, dançarine, produtore de moda e instrutore de passarela, durante as oficinas promovidas pelo evento The Ball Piauí, elu nos disse que “a Ballroom, por si, configura-se como espaço antirracista, uma vez que isto é inerente à sua construção, de modo que não devíamos ter que disputar dentro do espaço construído por pessoas negras”.

Este não é, no entanto, um desafio somente para a comunidade Ballroom, mas, sim um desafio para toda a comunidade LGBcis e branca que parece não se dar conta que a violência que assola travestis e transexuais é a mesma que os faz vítima. O Esquadrão GGG – expressão que aprendi com Jovanna Baby, ancestral e uma das fundadoras do movimento travesti brasileiro – contribuiu com o processo de marginalização de corpas travestis. A exemplo disso, Eduardo Vilalon, ao fazer uma discussão sobre o movimento homossexual brasileiro e a constituinte, apresenta trechos de falas nos quais homens gays faziam questão de distanciar-se de qualquer possível vinculação com a imagem de travestis e transexuais.

Como pude ouvir de minha amiga Tay Di Monique: “se a travesti não estiver na frente para levar o tiro, o gay não vive”. É imprescindível que a comunidade cisgênera assuma seu papel na luta antitransfóbica. Há, talvez, um distanciamento presente na comunidade e que dificulta este processo, relacionado com o fato de que ao partilharmos a dor, partilhamos a luta e esta dor é preta e travesti – e só travesti está por travesti.

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