Este foi um questionamento de Sojourner Truth, lá em 1851, em intervenção na Women’s Rights Convention (Convenção de Direito das Mulheres) em Akron, Ohio, Estados Unidos. Este questionamento vem sendo citado em diversos textos, livros e discursos desde então, e nunca deixou de ser contemporâneo.
Se você é uma mulher negra, assim como eu, certamente você fez esta autoavaliação, que é mais estrutural e estruturante que inerente a nós.
Esses dias, escutei de um homem branco que a afirmação “meu corpo, minhas regras” não era prática, já que, segundo ele, a sociedade impunha regras que eu, como mulher, seria obrigada a me adequar, que sobrepunham às concepções pessoais.
Imediatamente, eu pensei: “que audácia!” Olhem só, um homem branco, totalmente alheio às questões de gênero (e raça), querer me traduzir o que a sociedade espera (de uma mulher negra) e como eu sou obrigada (ou deveria) agir de acordo.
“Não serei interrompida, não aturo interrupção dos vereadores desta Casa, não aturarei de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita Presidente da Comissão da Mulher nesta Casa” Este foi um trecho, muito divulgado, por sinal, do último discurso de Marielle Franco, coincidentemente, ou não, em decorrência ao Dia das Mulheres, na Câmara dos Vereadores, em 2018.
Sempre que escuto este discurso, me arrepio. Não consegui identificar se em decorrência das circunstâncias que nos tiraram Marielle, ou se por me identificar fortemente com ele.
Nós, as mulheres negras, e eu só posso falar por este recorte, temos vestido muitas faces, inclusive, a de outsiders. E esta é a face que mais aflige. Há pouco menos de dez anos, “ser negro” não estava na moda, então nós nos escondíamos atrás das faces de características físicas que não eram nossas. Hoje, ser negro é ativo de negócio, o mundo descobriu nossos poderes, físicos e econômicos (para além da fetichização dos nossos corpos, será?).
Oito de março é, oficialmente, o Dia Internacional das Mulheres, desde 1977. Data em homenagem a um protesto ocorrido na Rússia, em decorrência das consequências da Primeira Guerra Mundial, em que as mulheres pleiteiavam melhores condições de trabalho, entre outras coisas. De lá, até aqui, muito temos evoluído, na política, em postos de trabalho, em condições de vida, e muito temos discutido, entre nós, entre grupos diversos, abrindo caminhos e espaços.
Entenda, nunca foi sobre flores, datas comerciais, chocolates, promoções de eletrodomésticos, textões de agradecimento às “mulheres da minha vida”. É muito mais sobre quem nós somos e o direito de sermos, indivíduos ou grupos, é sobre pertencer, seja quem formos, na hora que quisermos, não quando nos é permitido ser. É sobre falar sem precisar gritar, sobre não termos nossas ideias roubadas, sobre sermos reconhecidas, sobre jornadas de trabalho equiparadas, sobre salários iguais (aaaah o salário).
Eu acredito que seja também sobre nossos sentimentos, sobre o direito de amar e sermos amadas. Sobre o direito a nossos corpos, entende?! É sobre o direito de não precisar, em momento algum, me questionar: e eu não sou uma mulher?
