sábado, 7 de março de 2026

Um Piauí à Fonteles

Camisas brancas, promessas na segurança e a nova geração do PT no estado mais lulista do país

03 de outubro de 2022

Edição Luana Sena

Rafael Fonteles estava rouco no fim da noite do dia 2 de outubro. Não era pra menos. Nos últimos 45 dias de campanha, o petista de 37 anos viajava de norte a sul do Piauí para levar seu nome como sugestão ao Palácio de Karnak. Uma tarefa difícil: entre gabinetes e cálculos, o matemático funcionou nos últimos anos como uma peça chave nos bastidores do governo para preencher o “núcleo duro” das gestões do Partido dos Trabalhadores – uma parcela de aliados e nomes históricos da legenda. Nas ruas, no entanto, as camadas mais populares não conheciam ainda seu nome.

Sua caminhada exigia jogo de cintura e “olho no olho”. E ele teve: visitava várias cidades em poucos dias, se reunia com aliados diariamente, era presença confirmada nos debates e misturava seu nome à imagem de Lula. Marujo de primeira viagem, ele mergulhou fundo na disputa e fisgou 57% contra 41,70% votos do seu principal adversário, Sílvio Mendes (UB). 

Quando chegou a um dos comitês eleitorais do PT, na Zona Leste de Teresina, dezenas de apoiadores e militantes o esperavam. Um trio elétrico agitava a comemoração e repórteres de diversos veículos se empurravam para ouvir as primeiras palavras públicas do novo governador eleito. O momento era histórico: concorrendo pela primeira vez, o ex-secretário de Fazenda acampava mais votos até mesmo do que seu antecessor. Em 2018, Wellington Dias havia sido reeleito com 55% dos votos, totalizando 966.469. Quatro anos antes, o número chegou a 1.053.342 de votos. Nessa eleição, Rafael se torna o governador mais bem votado da história do Piauí. 

Porém, entre Rafael e Wellington parece haver um abismo. Ao contrário de todos os petistas que norteiam o partido, como Regina Sousa e Lula, a história de  Rafael se escora em outra narrativa. Isso porque, enquanto Regina é a quebradeira de coco que virou governadora ou Lula o torneiro mecânico que se tornou presidente, Rafael nasceu em uma outra realidade. Aos 17 anos ele colecionava medalhas internacionais de química, física e matemática. Foi aprovado em primeiro lugar no vestibular da UFPI, concluindo o curso de Matemática em tempo recorde: dois anos. Fez mestrado em Economia Matemática no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). 

A  inteligência de Rafael o colocou fora da curva e, antes dos 30, tornou-se Secretário de Fazenda do Piauí. Também foi eleito presidente do Comsefaz (Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda dos Estados) de 2019 até 2021, mas renunciou o cargo para se lançar pré-candidato ao governo. Entre a história dos petistas, ele se destaca – e não apenas pelas suas insubstituíveis blusas brancas. 

Mesmo sem uma história de ascensão social, a estratégia de Fonteles parece ter dado certo. O “menino de Lula” conseguiu embarcar na popularidade do ex-presidente com êxito.  Não à toa, o Piauí foi o estado brasileiro que deu maior percentual de votos ao ex-presidente Lula (PT) no 1º turno da eleição presidencial. O petista alcançou 1,5 milhão de votos no estado, o que representa 74,25% do eleitorado. 

Comparado ao atual presidente, a diferença foi de mais de um milhão de votos para Jair Bolsonaro (PL). As três cidades que mais registraram votos para Lula no Brasil são do Piauí: Guaribas, que foi a cidade piloto do programa Fome Zero, ficou em primeiro lugar com 92,14%. Em segundo lugar aparece Fartura do Piauí, com 91,44%, e em terceiro Campinas do Piauí, com 90,2%.

Fonte: TSE

Pela idade e proposta, Rafael apostou em um plano de governo diferente. Seu diferencial aparece nas pautas transversais para mulheres, LGBTQIA+, negros e comunidades tradicionais, além de inovação e tecnologia.  Mas esses temas não ficaram tão em ênfase, um dia após ter sido eleito, durante as primeiras entrevistas televisionadas. Foi fiel ao roteiro em falar de segurança pública – ponto bem mais explorado pelos candidatos à direita durante a campanha. A promessa da vez foi aumento de 1.000 policiais, a cada ano do seu mandato, para melhor aparelhamento e patrulha. O objetivo é desarticular facções e o crime organizado com um governo implacável. 

Outro ponto abordado nas entrevistas foram os pilares de emprego e geração de renda, o programa de educação integral e profissionalizante, como também a descentralização da saúde no Piauí. 

Já nesta segunda, Fonteles definiu seu primeiro secretário: o auditor Antônio Luiz Soares para a Secretaria De Fazenda do Estado do Piauí, o antigo cargo que ocupava. A julgar por este primeiro nome, os próximos quatro anos do Piauí sob a nova gestão petista devem ser de escolhas técnicas. 

Por outro lado, somente o futuro da gestão poderá confirmar algo que, há meses, foi ressaltado por Regina Sousa. Em entrevista à TV Cidade Verde, a atual governadora foi questionada sobre uma nova leva de petistas recém filiados este ano. Ela corrigiu o repórter e explicou que não eram novos “petistas”, mas novos filiados. “Petista se faz com história”, respondeu. Agora, entre as blusas brancas e o Karnak, resta saber se o novo governador irá vestir a camisa vermelha, escrevendo sua própria história, e rumo a mudanças para o Piauí.

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