quinta-feira, 23 de abril de 2026

Rede no quilombo

Mimbó, no município de Amarante, é a primeira comunidade quilombola com internet no país

15 de abril de 2022

Edição Luana Sena

Ramon Paixão nasceu e se criou na comunidade quilombola Mimbó, em Amarante (distante 170 quilômetros de Teresina), saindo de casa apenas para cursar Ciências da Natureza na Universidade Federal do Piauí (UFPI), na capital. Quando a pandemia da Covid-19 se instalou e os encontros presenciais foram suspensos, ele precisou voltar para casa e assistir às aulas online. Sem internet, ou qualquer outro tipo de conectividade segura, o estudante quase viu o sonho de concluir a universidade ir embora. Agora, no Mimbó, a internet faz parte do dia a dia dos quase 600 moradores da comunidade, se tornando o primeiro quilombo 100% conectado com fibra óptica do Brasil. 

O universitário estava em aula quando a reportagem do oestadodopiauí.com entrou em contato. O que antes parecia impossível se tornou viável após a instalação de cinco pontos de internet de acesso público por meio da parceria público privada (PPP) Piauí Conectado. “Até a conversa que estou tendo com vocês, pela internet,  antes seria impossível de acontecer”, conta. “Eu precisaria ir até Amarante para estudar ou fazer qualquer coisa que precisasse de rede”, destacou Ramon. 

Mimbó Conectado: rede wi-fi gratuita conecta famílias da comunidade (Foto: CCOM)

O Mimbó Conectado é um piloto para incluir projetos de desenvolvimento social e geração de renda das comunidades tradicionais no Piauí. Inicialmente, a ideia tinha sido pensada para os moradores do Mimbó que buscassem empreender por meio da moda, artesanato e cultura local. Porém, a qualificação e melhoria do ensino está sendo um dos maiores benefícios para os moradores. 

Marta Paixão, líder do Mimbó, destacou que as histórias e as tradições poderão ser vistas e valorizadas por meio da conectividade. “Por mais de 200 anos conservamos o mais importante, a potencialidade na moda, cultura e turismo, com a vista para o rio Canindé e cavernas onde se esconderam os primeiros habitantes do quilombo Mimbó”, comentou. “E hoje estamos concretizando mais um passo desse sonho”.

A governadora Regina Sousa contou ao estadodopiaui.com que conheceu o Mimbó em 1994, junto com o ex-presidente Lula. Uma das preocupações, durante a implantação do projeto, era de que a tecnologia não interferisse nas tradições da comunidade. Ela aponta que a inovação tem o objetivo de valorizar e ressaltar a cultura que já existe lá. “A ideia é valorizar a negritude e preservar para dá-los emancipação financeira”, frisa. “Uma autonomia para que eles nunca mais dependam de cestas básicas, mas sim, possam ter dignidade e sustento”, destacou a gestora.

Tablets serão usados para educação das crianças do Mimbó (Foto: CCOM)

Com acesso ao mundo sem precisar sair do lugar, a chegada da internet pode diminuir o êxodo da nova geração da comunidade. Uma reportagem da BBC destacou que, para a comunidade quilombola, trabalhar significa ficar longe de suas famílias – uma migração que descaracteriza e impacta as tradições centenárias da comunidade. 

Junto com o acesso à internet, crianças acima de cinco anos e qualquer morador que esteja matriculado em uma instituição de ensino recebem tablets para poder se capacitar ou melhorar o rendimento escolar. “A nossa expectativa é que o Mimbó possa ser conhecido mundialmente”, reforça Martha. “É um projeto que muda a realidade da comunidade”, finaliza a líder comunitária.

Desde 2021, a internet foi considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) um direito básico. Com a chegada da pandemia e a limitação das interações pelo contato virtual, comunidades quilombolas e tradicionais atravessaram esse período excluídas para além do preconceito étnico-racial. “Internet se tornou um direito”, comenda a professora e educadora popular, Lucineide Barros. “Principalmente hoje em dia, vejo esse direito sendo atendido tardiamente”, segue dizendo.

Governadora Regina Sousa em visita ao Mimbó, em Amarante (Foto: CCOM)

Se por um lado o avanço do agronegócio tem afetado cada vez mais a vida das pessoas nas zonas rurais, por outro, observa-se a chegada tardia de internet a esses locais. Uma pergunta se faz presente: “Como a internet pode ser uma ferramenta de superação dos problemas vividos nessas  comunidades?”, interroga Lucineide, destacando as investidas agressivas das políticas do agronegócio sob esses territórios e o racismo institucional. “A internet está longe de ser um instrumento para superar essas questões mas, a depender de como vai ser utilizada, é importante”, destaca.

Mais do que conectividade, a professora frisa a importância da internet para potencializar a educação na juventude e na infância. A maior parte dos jovens que saem das suas comunidades de origem, no geral, estão em busca de emprego ou acesso à educação nos centros urbanos. Em contrapartida, poucos retornam. “À medida que chega a internet, é importante que chegue a escola, a saúde e políticas que façam a comunidade se fortalecer como um todo”, pontua.

 

O Mimbó

A comunidade Mimbó, no município de Amarante, surgiu em 1819 com a fuga de dois casais negros, escravizados. Eles fugiam de Conceição do Canindé, em Pernambuco e encontraram a mais ou menos 200 quilômetros da capital de Teresina, uma caverna para se esconder.

O reduto quilombola foi crescendo com famílias que se refugiavam e viviam da caça e da pesca na região. Eram pessoas que escapavam das torturas e humilhações que sofriam e embrenhavam-se, corajosamente, na mata.

Em 2019, o Mimbó completou 200 anos de existência. Os 600 habitantes que vivem ali carregam o sobrenome da família Paixão e são, em sua maioria, descendentes dos primeiros a chegar por ali. 

A comunidade atravessou dois séculos e a história mantendo viva sua cultura e suas tradições.

Categorias: Reportagem

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