Na década de 1980, José Pinheiro, o Zezinho, se embrenhava nas matas e açudes do extremo-norte do país em busca de ouro. Os garimpos eram bem longe do lugar em que nasceu, uma cidade pequena do Maranhão, chamada Buriti Bravo. Enquanto se aventurava no garimpo, a mãe, Júlia Pinheiro, ia ganhando a vida para sustentar os filhos em Teresina.

(Fotos: Regis Falcão)
Eram diárias as andanças entre a vizinha maranhense, Timon, e Teresina, a capital do Piauí. Naquela época, só havia uma ponte para fazer a travessia entre os estados – a Ponte Governador João Luiz Ferreira, conhecida apenas como ponte metálica. Ele não tinha carro, coisa rara à época, então atravessava o rio de barco. Quando chegava o mês de agosto, a água baixava e a areia subia, formando as famosas “coroas do Parnaíba”. Daquela observação, nasceu uma ideia genial: um bar na “prainha”, uma praia improvisada na única capital nordestina que não tem mar.
Júlia tinha pouco estudo, mas era uma mulher inteligente. Nasceu pobre, porém empreendedora nata. O negócio começou com poucas mesinhas e uma grade de cerveja. O que chamava atenção era a aventura de achar que um rio poderia ser mar, e os tanques de areia, um pedacinho de praia. Não demorou muito para fazer sucesso, mas, quando vingou, gente de todas as zonas da cidade se abarrotava nas barcas para conhecer um pedaço de litoral em Teresina.

(Fotos: Regis Falcão)
Lá da coroa, Júlia era uma espectadora do crescimento da cidade. Naquela época, a Avenida Maranhão tinha apenas o “Troca-troca”, uma feira popular de eletrônicos e eletrodomésticos de segunda mão. Demorou quase uma década para ver despontando uma nova ponte que se desenhava sobre o rio: a Ponte da Amizade, oficialmente, Presidente José Sarney. A obra acabou no início dos anos 2000, na mesma época em que Zezinho voltava do garimpo para a casa de Júlia. A mãe queria descansar e o filho queria um emprego. Não deu outra: acabou herdando o empreendimento. Ficou a cargo dele tocar a Jericoroa – como batizou a partir da sua administração – e continuar a observar uma Teresina que crescia além do rio.
Zezinho acredita ser o empreendedor com vista mais privilegiada da cidade. Entre a coroa e a Avenida Maranhão, nesses 20 anos, a tecnologia criava prédios, comércios e o único metrô da capital. Os grandes empresários chamavam de progresso, mas o ‘dono da praia’, suspeita: “Hoje tem muito mais poluição na beira do rio”, comenta. “É lixo se misturando com mato, esgoto se misturando com rio”. Não somente a arquitetura da cidade tem mudado, e a cidade o rio, mas os hábitos das pessoas: “Antigamente podia botar um CD de Leandro e Leonardo a tarde toda, ninguém abusava, hoje a galera gosta de piseiro e eletrofunk”, conta em meio às gargalhadas.

(Fotos: Regis Falcão)
Nas temporadas de praia, que podem ser maiores (até cinco meses) ou menores (dois meses), ele não embarca somente com as cadeiras de plástico e os freezers. Com a mulher e o filho, vai de mala e cuia morar dentro da instalação improvisada na coroa. O sol de Teresina ajuda a emplacar a fama da praia artificial, mas Zezinho assume que ainda pretende sofisticar o negócio. Por lá, ainda não tem energia elétrica. A luz vem de um motor improvisado enterrado há poucos metros das mesas. O expediente da Jericoroa encerra junto aos barqueiros, por volta das 19 horas, quando a última lancha se despede. As luzes da ilha se apagam e a lamparina de Zezinho – e a cidade de Teresina – se acendem.
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Essa reportagem faz parte da série “Corisco”, reportagens-retratos com perfis anônimos que compõem o cotidiano urbano da cidade. Os textos são assinados por Vitória Pilar, com edição de Luana Sena, direção de arte de Aline Santiago e fotografias de Regis Falcão.


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