quinta-feira, 3 de abril de 2025

A rua fala

Muralismo, expressão de arte urbana, transforma espaços nas cidades através das cores do grafite

30 de agosto de 2021

Teresina carrega há um tempo o título de cidade verde – a referência sempre foi a abundância florestal da cidade mas, nos últimos anos, com o verde cada vez mais dando espaço para o cinza do concreto, a cidade vira tela para quem pensa o mundo em cores. A expressão da arte urbana nas paredes que, muito lentamente, começa a preencher os espaços, tem um nome: muralismo

Washington Gabriel, ou apenas WG – o nome que adota como artista – é grafiteiro há 18 anos e tem sido um dos pioneiros nesse movimento artístico no Piauí. 

Arte W.G (Foto: arquivo pessoal)

“A arte faz um bem danado”, ele diz, confessando que, apesar de ser uma frase simples, significa o poder de ter uma cidade que se movimenta através da arte. Não são apenas as cores, esclarece: mas o significado que os murais coloridos trazem à cidade.

Para ele, a arte urbana leva vida à capital e acompanha o cotidiano de muita gente – entre rotinas atarefadas e o cotidiano de uma vida corrida, os habitantes da cidade co-habitam espaços preenchidos de cores que dialogam, criticam, passam mensagens e questionam a própria estrutura das comunidades onde se inserem. “Quanto maior a tela, maior é a inserção da arte em cada um que a vê”, relata.

Para quem pinta, o objetivo é que a arte seja democrática e faça parte da vida das pessoas. O muralismo inverte o processo de relação arte-público: ao invés de observadas em um local específico para obras (como galerias, museus e afins), as telas e os artistas encontram pessoas na rua, levando a quebra de uma elitização da arte. A intenção é chocar a rotina e democratizar o acesso à arte, levando ela para a comunidade.

Hoje, andando pela cidade, o artista diz sentir cada vez mais ambição em pintar algo maior, e afirma ser assim com todos aqueles que optam pelo muralismo – cada projeto é uma busca por novos desafios e superações. “Queremos que a nossa cultura seja notada”, diz.

Arte W.G (Foto: arquivo pessoal)

A mudança de pensamento na sociedade também é importante no processo de aceitação dessa expressão artística. O grafite ainda é considerado um tipo de arte menos aceita, sobretudo em regiões conservadoras – fato que desestimula quem deseja viver exclusivamente do trabalho de pintar. O artista acredita que a cidade gosta das intervenções, embora viva um paradoxo de ser antenada, flertando com o moderno e, ao mesmo tempo, preservar costumes conservadores que beiram ao provincianismo.

Em muitas capitais, como São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Recife, o muralismo se tornou um mercado consolidado e valorizado. Por aqui, o movimento caminha a passos lentos em busca de investimento e reconhecimento.

Uma das dificuldades apontadas por WG é que, apesar do muralismo crescer, os profissionais ainda não estão sendo valorizados e incentivados. “Aqui a gente tem que fazer tudo”, explica relatando que muitos grafiteiros com orçamento reduzido se dividem na produção, logística e estrutura dos lugares escolhidos. 

O pouco incentivo da capital faz com que muitos artistas migrem para outros estados. Foi assim com Luna Bastos, que iniciou na arte urbana em 2012, em Teresina, mas viajou para outros estados na busca por desenvolver seu estilo próprio. Com passagem em São Paulo e morando hoje no Rio de Janeiro, ela destaca que as artes que produziu na capital piauiense não refletem mais tanto seu trabalho atual. “Ter me mudado para o eixo Rio-São Paulo foi o que me possibilitou ampliar meu trabalho”, comenta. “Precisa de política pública efetiva para apoiar artistas em Teresina”. 

Luna Bastos: experiência fora ajudou a formar seu estilo artístico (Foto: arquivo pessoal)

Na contramão da procura por grandes metrópoles, a maranhense Cacau Ribeiro viu oportunidades em pequenos municípios. Ao conhecer o piauiense Andrei Nunes em um evento na faculdade de arquitetura em São Luís, o casal engatou relacionamento e veio morar em Teresina. Os arquitetos faziam designs em objetos como geladeiras, filtros de barro, ambientes internos e chegaram a pintar até uma kombi. O trabalho, que surgiu naturalmente, acabou virando uma profissão com o Cactus ink. Juntos, em 2020, revitalizaram a escadaria do Alto da Costa e Silva, em Amarante, cidade a 130 km, centro-sul do Piauí.

A escada tem sete lances, cada um com 11 degraus – os artistas dividiram mais de 170 metros quadrados de arte em sete temas que contam a história da cidade. “Foi nosso primeiro trabalho e aconteceu no interior do Piauí. Quase duas semanas de trabalho”. O casal também assinou trabalhos em Barra Grande e São Raimundo Nonato. “Tem uma procura, mas falta incentivo em cidades menores. Os passos nesses locais ainda são mais curtos”, frisa.

Escadaria Alto da Costa e Silva, em Amarante, durante o dia e à noite (Foto: arquivo pessoal)

Das paredes à pesquisa

O muralismo em Teresina também chama a atenção de pesquisadores acadêmicos. As pinturas pelas ruas são foco do projeto de extensão “Murais Urbanos: do muralismo ao grafite”, desenvolvido pelo curso de arquitetura da Universidade Federal do Piauí (UFPI). O projeto virou livro homônimo e foi lançado neste ano, coordenado pelo professor Roberto Montenegro. A pesquisa teve como objetivo estudar os murais como patrimônio na cidade. 

O estudo mapeou murais na capital e revelou uma grande presença desse tipo de arte no centro da cidade, dos mais variados estilos. A publicação contém uma entrevista com o artista Nonato Oliveira, de 72 anos, que possui uma extensa obra destacando a tradição, originalidade e cultura local em painéis urbanos. Segundo Roberto, a obra de Nonato se diferencia do trabalho da nova geração tanto em técnica quanto em temática – os novos artistas urbanos costumam apostar em críticas sociais e assuntos contemporâneos, por exemplo. 

“Os artistas mais jovens cresceram em uma cidade onde os murais feitos pelo Nonato já existiam”, explica. “Agora, os mais jovens trazem outros temas e tratam de assuntos que talvez Nonato não alcance, por isso o diálogo entre as duas gerações”, diz.

Para o professor, um dos desafios que Teresina enfrenta quanto a introdução do muralismo é a sua impermanência, uma vez que alguns murais já se encontram em estado de má conservação. Segundo Roberto, é necessário que junto com a valorização dos artistas haja uma política cultural de preservação, dada a importância do fortalecimento da memória cultural da cidade. 

Muro é política

Mulher e artista, Lu Rebordosa acredita que arte é política. Ela começou em 2012 com as práticas que ela chama de “poste e lambe”, com desenhos autorais voltados para questões de resistência ligadas à mulher. A partir de 2014, conheceu o grafite e reinventou seu ativismo. 

Lu Rebordosa: artista valoriza cultura ancestral das mulheres (Foto: arquivo pessoal)

Em seu trabalho há a frequente presença do feminino como uma forma de representatividade estética. A artista acredita que a arte e a sociedade são afetadas por questões patriarcais e machistas, por isso é importante uma autocrítica por parte da produção artística. Ancestralidade, mulheres trans, indígenas e afro-brasileiras são as suas principais marcas nos murais. “Agora eu estou com um trabalho na rua que são corpos gordos, porque a gente pouco vê esse tipo de corpo e corpa representados na rua”. 

Ser mulher é uma questão enquanto artista, ela frisa. Na rua, por várias vezes, os assédios acontecem. “Sou chamada de gostosa, mandam eu ir pilotar fogão, lavar roupa”, descreve as situações que passou enquanto trabalhava. Atualmente, não faz trabalhos à noite e evita locais com pouca movimentação para sua segurança. Limitar o seu trabalho apenas por ser mulher é a maior diferença entre ser uma mulher e um homem artista.

A presença de mais mulheres dentro do meio artístico é um desafio a ser enfrentado. Em eventos e promoção de editais de incentivo, a presença masculina é majoritária, aponta a artista. Ela destaca que é preciso a criação de eventos próprios e com temáticas voltadas para abraçar a arte das mulheres artistas: “A gente também existe na rua”. 

Por aqui deu certo – projetos e murais

  • Mirante 9 de Julho (São Paulo) 

De abandonado e esquecido a transformado e inesquecível, o Mirante 9 de Julho tornou-se um local único em São Paulo. Mais que um monumento histórico recuperado, é também espaço cultural, cafeteria, restaurante e um ponto de encontro para turistas, moradores, trabalhadores e curiosos da região.

(Foto: reprodução da internet)

  • Beco do Codorna (Goiânia)

Inaugurado no ano de 2014, tornou-se reflexo da tendência do urbanismo que nasceu na cidade. Foi no ano de 2015 que o espaço caiu no gosto popular, representando uma verdadeira galeria a céu aberto prestigiando a cultura do grafite. Diversos eventos culturais acontecem no Beco da Codorna, desde feiras até shows que trazem para os palcos bandas e artistas locais. 

  • Caminho do Grafite (Rio de Janeiro)

O Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, conta com dezenas de grafites feitos por 45 artistas em 50 casas, em um projeto para fomentar o turismo na comunidade e dar alternativas ao tráfico aos jovens da região. Essas cores fazem parte do projeto “Caminho do Grafite”, que tem como objetivo atrair visitantes. O trabalho é impulsionado pela agência de turismo alternativo Santa Prazeres Tour e pela Galera.com, uma produtora audiovisual que busca a inclusão dos jovens através da realização de vídeos sobre a vida cotidiana na favela.

(Foto: reprodução da internet)

No Piauí

Muito em breve Teresina ganhará uma intervenção de arte urbana no bairro Monte Castelo. A iniciativa é de Pedro Veras, head de inovação do The Hub e diretor do estadodopiaui.com, que mobiliza a ação com outros amigos. 

“A cidade tem lugares e cantos que poderiam estar sendo usados pelas pessoas e, no entanto, estão abandonados”, diz, explicando a escolha do lugar: uma escadaria em um dos pontos mais altos da cidade. O espaço se encontrava deteriorado e em desuso, até o início do trabalho de revitalização. 

“Queremos fazer uma oficina com grafiteiros e jovens do bairro para introduzir o mundo do grafite”, antecipa. “A ideia é que este possa ser um espaço de convivência e interação e não apenas área de circulação de veículos e pessoas”, defende. “Essa escada pode ser um novo ponto turístico da cidade”. 

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Categorias: Reportagem

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