Aos sete anos de idade, uma garotinha vestida de fada treinava skate nas praças da cidade de Imperatriz, no Maranhão. As manobras ganharam visibilidade na internet e abriram portas para o que hoje é motivo de orgulho nacional: a inédita medalha de prata para o Brasil em skate, nas Olimpíadas de Tóquio.
Hoje, aos 13 anos, Rayssa Leal é a atleta mais jovem a ganhar uma medalha em olimpíada e a primeira vice-campeã da história da modalidade. Mas, além do recorde, sua história tornou-se motivo de inspiração para o esporte na juventude e quebra estigmas em todo o mundo.
Em Teresina não foi diferente. James Piva é idealizador do projeto Skate Escola, que há 18 anos atua no desenvolvimento de ações para a prática esportiva entre os mais novos. Hoje é professor voluntário para cerca de 45 crianças na Associação Fraternidade, mas apesar da maior aceitação social nos últimos anos, relembra que a pouco tempo era comum a criminalização e associação dos esportistas à marginalidade.
“Até tiro a gente já pegou de vigilantes que via a gente andando de skate nas ruas”, conta o educador. Ele completa dizendo que muitas vezes tinha o skate apreendido, além de escutar comentários sobre sua idade, associando o skate a práticas de garotos, não de adultos. “Diziam que eu tinha barba e continuava a andar de skate”, relata.
O professor destaca que já é perceptível os efeitos da conquista da medalha da maranhense – o feito de Rayssa torna-se mais um incentivo para o avanço da prática na cidade. Sensação que também é compartilhada pela skatista Carol Cardoso. Aos 17 anos, desde criança é adepta do skate. “A vitória da Rayssa estimula a prática e deixa bem claro que qualquer um pode conseguir”.
Prática para a vida
A prática esportiva na infância é responsável por importantes contribuições para o desenvolvimento psicossocial e físico dos praticantes. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é o exercício diário de pelo menos 60 minutos a cada cinco dias na semana, para a faixa etária.
Contudo, ao longo dos anos, a procura por esportes vem tendo uma queda associada às restrições ocasionadas pela pandemia da Covid-19. No Brasil apenas 28% das crianças praticaram alguma atividade física no ano passado – número que é visto com preocupação por especialistas. O técnico de atletismo e educador físico Nilson de Sousa reforça que pais e responsáveis devem acompanhar com cuidado e incentivo às atividades de jovens e crianças. “Nossos adolescentes estão muito voltados para as redes sociais, mas o esporte é bom para traçar metas e convívio em grupo, foco e disciplinas: habilidades que são levadas para a vida adulta”.
Evasão de atletas
Nilson é responsável por um projeto social que treina jovens esportistas em Timon, cidade maranhense vizinha a Teresina. O projeto já revelou medalhistas mundiais, inclusive atletas olímpicas como as corredoras Joelma das Neves e a teresinense Cristiane Silva, ambas participantes da Olimpíadas Rio 2016. Mesmo sendo motivo de orgulho para o projeto, a história das atletas também ilustra a dificuldade em continuar no esporte. Para chegar as disputas olímpicas, a maioria tem que ir para outros estados, realidade enfrentada, segundo o técnico, pela falta de investimento e patrocínio.
“Muitos atletas são obrigados a desistir ou ir a outros estados por falta de patrocínio logo no início de suas carreiras”, diz complementando: “Poderíamos ter perdido duas atletas olímpicas por essa dificuldade”. A ausência de políticas públicas e espaços de qualidade para os treinos são, no geral, os principais fatores responsáveis pelo encerramento precoce da carreira de tantas Cristianes, Joelmas e Rayssas que, muitas vezes, por falta de assistência e incentivo, perdem a chance de conquistas brilhantes para elas e para o mundo.


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