sábado, 7 de março de 2026

Tênis no pé, esperança no coração

Revisor de textos monta time de basquete com meninos em situação de risco na Vila da Paz e arrecada tênis pela internet

23 de maio de 2022

Edição Luana Sena

Um grupo de meninos jogava basquete em uma quadra da praça pública na Vila da Paz, zona Sul de Teresina, com uma tabela improvisada. Edson Macario passava na rua, no momento do jogo, e assistia a disputa dos garotos, sem jeito e sem noção das regras do esporte. De todo modo, eles pareciam se divertir. A cena chamou atenção de Edson, que até então, era revisor de textos acadêmicos e só conhecia praticantes do esporte na capital que treinavam no 25º BEC –  unidade do exército brasileiro na capital. Ele desceu do carro e foi em direção a garotada – ensinou alguns passes e pensou em montar um time. Daquele encontro ao acaso, há sete anos, nasceu a vontade de montar times de basquete com jovens da periferia da capital. 

Jovens aprender basquete na Vila da Paz (Foto: Vitória Pilar)

Os encontros acontecem religiosamente às terça e quintas, desde 2015. Os meninos vêm dos entornos da Paróquia de Nossa Senhora da Paz, a maioria da Vila da Paz, Vila Jerusalém e Vila Costa Rica. Já no começo da noite é possível ouvir as bolas batendo no chão da quadra e o apito do treinador. Não demora muito até a rua se encher de garotos com réplicas de blusas de times de basquete e tênis nas mãos, descendo para a quadra da escola – ambas levam o mesmo nome da paróquia, localizadas na rua Piracuruca. 

Mas, antes desse lugar, os primeiros treinos foram acontecendo em uma quadra do bairro Morada Nova. O lugar não tinha tabelas adequadas e o desenho do campo não era específico para os jogos de basquete. Edson procurou então a direção da paróquia, fundada há mais de três décadas pelo padre Pedro Balzi – um sacerdote italiano conhecido por realizar trabalhos sociais na região sul da capital. Junto à igreja há um complexo dividido com a Escola Municipal Nossa Senhora da Paz, onde há turmas do ensino médio e fundamental, que firmaram convênios com o estado e prefeitura, respectivamente, para manter o lugar funcionando. 

As aulas do trabalho voluntário acontecem à noite, no contraturno das atividades da escola. Laura Marques é mãe de um garoto de oito anos que faz parte do time infantil do basquete e conta que, na região, a unidade católica expõe as poucas oportunidades de um jovem periférico: a escola, a igreja, o esporte ou a criminalidade. 

Campanha na internet arrecadou tênis e doações para o projeto (Foto: Vitória Pilar)

Edson compartilha do mesmo posicionamento da mãe e pensa que os jovens que persistem nas aulas de basquete e na escola, são sobreviventes. O bairro tem se tornado reduto de facções nos últimos anos, e não tem sido raro os acontecimentos violentos e disputas de gangues com acertos de contas. O alistamento de jovens para esses grupos está sendo sentido pelas famílias, que recorrem à igreja e aos professores por vagas e matrículas em atividades para que os meninos e meninas não sejam atraídos para a criminalidade. Laura teme à volta para casa, à pé, pelas ruas com pouca iluminação, mas não desiste das idas porque vê retornos positivos da criança nas aulas. “Na quadra ele encontra amigos e aprende a viver em coletivo”, conta a mãe. “Eu quero isso pro meu filho: um futuro tranquilo”. 

 

Ponto para a rede

Enquanto as crianças jogam, Breno Fernandes, 17 anos, balança as pernas ansioso para a categoria de adolescentes começar. O jovem é um dos alunos mais antigos do time, chamado Babaçu, e vai competir no campeonato da Federação Piauiense de Basketball nas próximas semanas. Quando começou, ele não tinha tênis apropriado para o basquete, modelos que possuem antiderrapante e um cano um pouco mais alto para proteger das entorses do tornozelo. Para jogar na quadra da Nossa Senhora da Paz, Edson deixa que eles treinem com qualquer modelo, até descalço – como a maioria chega – mas, para a competição, é preciso um tipo adequado. Eles custam em torno de R$200 a R$400 reais. Nem o professor, ou as famílias, conseguem arcar com os pares para todos os jovens.

O jeito é pedir doações. Mas, antes disso, a solução era pegar escondido os tênis das filhas para doar aos meninos que treinavam o esporte. Foi por conta disso que Natália Macário, filha de Edson, montou uma campanha nas redes sociais. Em um tweet, ela pediu doações de tênis para os alunos do pai poderem competir. A situação logo tomou fôlego nas redes sociais e, em menos de uma semana, pares e transferências bancárias garantiriam tênis novos para os jogadores. Até a equipe mais jovem que, em geral, tem dificuldade para encontrar tênis com a pontuação menor, terão um par para chamar de seu. “Foi uma surpresa muito boa, ela colocou na internet e as ajudas não paravam de chegar”, comenta o treinador. “Muita gente se unindo para fazer os sonhos desses meninos virarem realidade”, frisa. 

Mais despreocupado com a necessidade dos tênis para o campeonato, Edson comemora que, a cada ano, pais da comunidade tem procurado inscrever seus filhos. Aos 60 anos, ele divide sua rotina entre os treinos de basquete e revisões de trabalhos acadêmicos. Viver entre estudantes sempre fez parte da sua vida, até mesmo antes de se mudar da Paraíba para Teresina, há 17 anos. Mas foi na zona Sul, com os meninos da Vila da Paz, que ele se tornou o “Tio Edson”. Isso tem feito-o seguir acreditando que o esporte pode mudar a realidade de pessoas e lugares – por mais remotos que sejam. “É preciso que as pessoas acreditem que um menino pode sair da periferia de Teresina e virar um astro do basquete, mas isso se faz com investimento”, reforça. “E tudo pode começar com um tênis, não é?”.


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