Quem passa de carro, moto, ou até mesmo caminhando na ponte Anselmo Dias, que liga as zonas Sul e Sudeste de Teresina, consegue ver a olho nu as grandes edificações urbanas levantadas em torno dos rios que cortam a cidade. Também é possível ver um pouco dos shoppings centers e os braços da Ponte Estaiada, na zona Leste, mesmo que mais distante do lugar. O que não dá para ver, nem mesmo esticando a vista, é um punhado de casinhas, aglutinadas uma do lado da outra, a poucos metros da ponte. Nem mesmo quando se passa na Avenida Celso Pinheiro, onde uma estrada de terra se revela, quase como um rasgo na via, pode-se imaginar que a poucos metros dali há habitantes. No coração da capital, a comunidade Terra Prometida, é quase uma cidade invisível.

Região da Terra Prometida (Foto: reprodução do Google Maps)
O lugar surgiu em 2014, logo após uma série de batalhas judiciais para evitar despejos em ocupações na zona Sul. Somente em 2016 virou uma ocupação registrada, ali no pedaço de terra recuado. Bem no início, as casas eram construções rudimentares, feitas de taipa. Lentamente foram ganhando tijolo e cimento. Ali tudo parece ainda em construção e materiais na frente dos casebres revelam pequenas obras andando em marcha lenta. “Quando sobra dinheiro a gente tenta levantar uma parede, rebocar um cômodo”, explica Maria Deuzina Santos, moradora do lugar. “Mas entre comprar o que comer e fazer reforma, a gente escolhe a barriga”, revela à reportagem.
Uma simples caminhada entre as casas do lugar revela uma evidência: Terra Prometida é um lugar feminino. Mulheres e crianças são, em maioria, os rostos que saem nas portas e movimentam a vida na comunidade. Grande parte das mulheres cuida dos filhos sem a presença masculina, compondo a estatística significativa de mães solos. Um dado curioso, aponta Maria Benta Borba Freire, líder da comunidade, desconstrói a formação ditas tradicionais de núcleo familiar: há uma quantidade quase igual de famílias LGBTQIA+ e heterossexuais na comunidade. A maioria veio para fugir dos preconceitos vividos em seus lares de origem. Na Terra Prometida, encontram um lugar para viver sem preconceito. “Ninguém aqui mexe com ninguém, a gente é uma irmandade”, explica a líder.

“Só quem passa sede olhando para o rio na sua frente sabe o valor da água”, Benta, líder comunitária (Foto: Vitória Pilar)
Com espaço para as diferenças, os problemas enfrentados unem as casas. Há pouco menos de dois anos, chegou ao local a instalação de água e luz elétrica. Nem todo mundo, entretanto, conseguiu fazer o registro nas concessionárias para garantir seus direitos básicos. “Tem gente que prefere não ter água porque não sabe como vai pagar a conta”, explica Benta. “É o jeito viver de ajuda, tomando água nas casas alheias, tomando banho na água do rio”, relata. Um dilema quase paradoxal para quem vive na Terra Prometida: a poucos metros do rio Poti, nenhuma gota de água em casa.
Uma alternativa é a Tarifa Social, um benefício oferecido pela Águas de Teresina, que concede 50% de desconto na fatura das famílias de baixa renda. O programa visa garantir água encanada para a população mais empobrecida. Benta tem lutado aos poucos para garantir que mais famílias possam alcançar o benefício.
Por outro lado, mesmo para quem a água já chegou às torneiras, saneamento básico ainda é algo raro. Nas ruas improvisadas da comunidade, o lamaceiro escorre entre as vielas. Não há escoamento para a água proveniente das moradias, que acaba virando poças nas ruas, espreitando as calçadas das casas. As raras moradias com banheiros recorrem à fossa improvisada, construída pelos próprios moradores. O cômodo, quase inexistente, muitas vezes é improvisado em cabanas fora das residências. É quase um cômodo de luxo para quem vive por ali. Uma realidade bem parecida em outras cidades no Piauí, onde, ao todo, quase 114 mil domicílios não possuem banheiro, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Terra Prometida: a poucos metros do rio, nenhuma gota de água. (Foto: Vitória Pilar)
A estrutura para saneamento e esgoto está prevista para ser instalada no próximo ano, afirma a líder comunitária à reportagem. Um estudo do INICEF, Banco Mundial e Instituto Internacional de Águas de Estocolmo (SIWI), evidencia que crianças e adolescentes são os principais atingidos com a falta de saneamento e água do país. Ao todo, a estimativa é que quase 15 milhões de brasileiros vivendo em áreas urbanas, não têm acesso à água potável. Nas zonas rurais, a situação é ainda pior: 25 milhões de pessoas ainda precisam buscar a água em locais longes de casas.
Quando se trata de esgoto, o drama se acentua: são quase 100 milhões sem instalações sanitárias adequadas. Nesses locais, muitos dos compartimentos são compartilhados com mais de uma moradia – similar a situação vivida na Terra Prometida, onde não há esgoto coletado e tratado de forma segura. Estima-se que hoje, no Brasil, 2,3 milhões de pessoas improvisam banheiros a céu aberto. “A gente não vê, claro, mas muita gente vai para a beira do rio fazer suas necessidades, para não ficar pedindo nas casas que tem banheiro”, revela Benta.
Água como direito
As consequências da falta desses serviços vão além dos desastres ambientais. A ausência dos sistemas de tratamento de água e esgoto, nas zonas urbanas, estão diretamente associadas à educação e qualidade de vida de crianças e jovens – as principais vítimas das desigualdades no acesso a saneamento. Sem água em casa, um quantitativo considerável de crianças falta ou abandona as escolas. O estudo BRK Ambiental evidenciou que, com saneamento pleno, o atraso escolar de um estudante pode reduzir em até 10%. Em números, isso pode ser equivalente a quase um ano de estudo.
A pandemia da Covid-19 tornou o quadro ainda mais crítico. Sem água em casa, lavar as mãos para evitar o coronavírus tornou-se um esforço. Casas sem rede de água, segundo a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, do IBGE, chegaram a quase 9,6 milhões no país. Sem saneamento, as pessoas ficam mais doentes – em 2020, foram registradas 342 mil internações hospitalares por doenças que poderiam ser evitadas se houvesse acesso pleno à água e esgoto.
Ainda no primeiro ano da pandemia, a crise sanitária evidenciou os índices de desigualdade no acesso à água. Foi nesse ano, no entanto, que Teresina alcançou a universalização do abastecimento de água na zona urbana. Por conta disso, a capital chegou a figurar no Ranking do Saneamento Básico como um dos municípios cujo atendimento de água urbana é 100%. Os números positivos, agora, tentam se reproduzir na cobertura de esgotamento sanitário. Segundo a Águas de Teresina, a expectativa é que, até 2023, a cobertura de saneamento contemple todos os bairros.
Nos últimos cinco anos, o resultado tem sido positivo: a cobertura de esgotamento sanitário mais que dobrou – saltou de 19% para 42,6% -, substituindo esgotos a céu aberto. Até 2024, é esperado que a cobertura de esgotamento chegue a 59%, estima a subconcessionária. Com isso, comunidades como a Terra Prometida, na zona urbana da cidade, poderão finalmente utilizar a água de forma ampla e possível: “Só quem passa sede olhando para o rio na sua frente sabe o valor da água”, destaca Benta, a líder comunitária. “Aqui, ela vale ouro, mas era pra ser o mínimo”.



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