Na coluna anterior escrevi sobre o momento anti-ciência que enfrentamos no Brasil: com os cortes profundos que educação e pesquisa estão sofrendo do governo federal, o desenvolvimento científico e econômico está decididamente comprometido.
Entretanto, e apesar da postura anti-ciência representada no negacionismo sempre atuante no Whatsapp e outras redes, é impossível não constatar a felicidade que uma família sente quando um dos seus entra em uma instituição de ensino superior. Basta olhar as redes sociais na época de resultados do SISU: muita festa e comemoração.
As celebrações se explicam por várias dimensões, entre elas a econômica. A pesquisa Education at a Glance 2017, da OCDE, aponta que em média o brasileiro com nível superior ganha 140% a mais (mais que o dobro) de alguém apenas com o ensino médio. Esses números sobem para 350% (quase quatro vezes mais) caso a comparação seja entre quem cursou uma pós-graduação e quem tem somente o ensino médio.
Em um país com alto desemprego e o trabalho cada vez mais precarizado, entrar na universidade é uma oportunidade de mudar a realidade econômica do aluno e também da sua família.
É necessário lembrar o quanto o perfil dos estudantes universitários mudou na última década. A partir da aprovação da lei de cotas em 2012, as instituições federais de ensino superior passaram a reservar 50% das vagas de acesso para estudantes de escola pública com diferentes perfis – nível econômico, pretos, pardos e indígenas.
Isso mudou a cara das universidades. Antes muito restritas a uma elite estabelecida, as instituições acabavam por auxiliar na reprodução e manutenção da desigualdade estrutural brasileira.
Para se ter uma ideia do tamanho da mudança de perfil dos ingressantes, a USP, uma das principais universidades do país, apenas agora em 2021 atingiu o índice de 50% de ingressantes vindos de escolas públicas. Desse número, 44,1% são autodeclarados pretos, pardos e indígenas – quantitativo que em 2010 não chegava a 6%.
Hoje em dia as instituições federais são a cara da diversidade. Histórias como a de Guilherme Lopes, relatada no Estado do Piauí, passaram a ser não mais a exceção da exceção, mas sim resultados possíveis de políticas públicas vitoriosas de acesso ao ensino superior.
Do exposto, gostaria de fazer um adendo a já citada coluna anterior. Os ataques às universidades não são apenas ataques ao desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, e a qualquer projeto de soberania nacional que possamos ter. Esses ataques são, antes, ataques contra a população mais pobre desse país.
